Quinta-feira, Julho 24, 2008

contos de escola ou menino-poeta, parte 13 e parte 14

parte 13
enquanto caminhava para casa, o sol aparecia timidamente, com parcos raios de luz pálida. a escuridão ainda parecia se impor, e se dissipava contraditariamente, como se tivesse preguiça de deixar o dia entrar e acordar o mundo. melhor se assim fosse... tal que a luz não traria esse fim solitário e entediado à minha fantasia que tinha, por fim, se tornado real. agora, eu me sentia sólido demais. meus pés pesavam para se arrastar, como se não tivesse mais motivos para continuar andando. o lugar que eu os direcionava não era nem um pouco convidativo. meus olhos já avistavam, à contragosto, tal casa que aspira a presença azeda da minha mãe por toda a parte. meu corpo pedia um banho e uma cama quente e confortável onde eu pudesse dormir até que o mundo acabasse. antes de abrir a cerca baixa pintada de azul marinho, parei para absorver o sol que agora tomava conta de tudo, impiedosamente. que cruel que é ao expulsar a noite livre e voluptuosa ao achar mais importante sua função de trazer mesquinhas obrigações! antes que minha mãe também acordasse e me visse daquela maneira patética, que daria oportunidade a muitas perguntas invasivas e desoladoras, entrei dentro desta casa - que poderia ser simpática, mas que nada me satisfazia - amarela. caminhei com os mesmos pés pesados pela sala, observando com tristeza seus dois sofás claros, uma televisão grande e algumas flores... que não contribuíam para deixá-la convidativa. retardei ainda mais os passos ao passar pelo corredor escuro e opressivo, jogando-me na minha cama sem menor interesse por coisa alguma mais. virei de lado, respirando vagarosamente e fechei os olhos, sem intenção de dormir. gostaria de pensar na minha professora, mas minha mente repulsou tal imagem, instantaneamente, como quem joga fora o que é velho e sem valor. tomei um banho e dormi, sem sonhos nem emoções.

parte 14
talvez por costume, meu coração acelerou-se descompassadamente quando o sinal bateu para a aula de português. a professora entrou sem glória, como sempre, com seus passos engraçados e rápidos. a sala continuou na sua euforia insensata, e eu me calei, embora meu coração já voltasse ao seu ritmo normal. passou por mim com a cabeça baixa, mas sua face não estava ruborizada, sem mostrar menor sinal de constrangimento. ainda que eu tivesse dormido todo o domingo, não estava tão disposto a atentar à sua aula. para minha surpresa, ela sorriu diante dos alunos indiferentes, e este sorriso revigorara minha alma. tive vontade de sorrir-lhe de volta, mas não me arrisquei a fazer movimentos acusatórios. vi que vários alunos - todos do sexo masculino - também se empertinaram nas cadeiras e alguns até se sentiram íntimos para sorrir. dias depois de me encontrar com a professora, achei que tudo que eu sentia por ela tinha diminuído abruptamente, como se a realização do desejo bastasse para sedá-lo e, com um pouco mais de tempo, eliminá-lo completamente. essa constatação me assustou no início, mas depois fez um pouco de sentido, já que eu não queria para sempre sentir-me febril de paixão impossível. talvez a certeza de um relacionamento recíproco me traria um contentamento mais duradouro, afinal, ela era minha professora. agora, entretanto, sentira uma vontade animal de surrar todos aqueles moleques bobos para que tivessem vergonha de sorrir, da próxima vez, sorrisos sem dentes. olhei com desconfiança para a mulher que agora falava em um tom amável e serenamente poético. explicava-nos que deveríamos ler para atiçar nossos desejos mais profundos, acordar nossa incomformidade e sonhar sem medo de cair. essas coisas tão doces poderiam fazer todos se apaixonarem pela mulher que era, e não pela professora que representava ser. olhei em volta novamente e todos - todos - tinham se calado e voltado seus olhos presunçosos para a voz tão reconfortante de frente. atrás de mim, um menino louro e imbecil cotucou o outro e atraveu-se a falar com sua voz máscula e tonta "essa professora é até que gostosa, né cara...". cerrei os punhos debaixo da mesa e, mesmo com a consciência exata do meu egoísmo, desejei que ela voltasse a ser uma professora ruim. que ela metesse a gramática inútil, falasse de regras ilógicas, mandasse fazer exercícios só para cumprir seu horário e receber salário no fim do mês. por que isso agora? ninguém tinha que saber da sua alma, isso era tão intimista... talvez apenas meu. ninguém teve que mandar poemas sofreguidamente escritos para escutá-la dessa maneira, tão leve e melíflua. terminou de falar, sugerindo que escrevessemos alguma coisa - e que se não conseguissemos que pegassemos de outro autor - e trouxéssemos para declamar em uma roda na próxima aula. em uma roda! "e eu não serei a mestra, serei a ouvinte." ah! quanto eu daria para você voltar a ser uma mera funcionária carrasca! aos poucos, os rostos atentos saíram da atmosfera de encanto que ela tinha criado. nunca achei que alguém pudesse ser capaz de fazer isso com aqueles corpos que pareciam existir só para ocupar espaço. que sentimento incoerente que se apoderara de mim! eu deveria admirá-la mais, mas minha pouca alma continuava a irradiar esse ciúmes devastador. depois que ela viu que a sala voltara a seu estado normal, olhou-me e abriu um sorriso rápido e íntimo. suspirei aliviado e abri as mãos, já vermelhas por terem se fechado com tanta raiva contida. ela iria querer se encontrar comigo de novo, e eu teria bem mais que suas palavras semeadoras de liberdade. beeeem mais. porém, nos últimos cinco minutos, não tirei os olhos dela com medo que ela abrisse esse sorriso carregado de promessas para mais alguém. suspirei aliviado ao constatar que permaneceu calada, sem olhar a sala, perdida nos seus pensamentos enquanto fingia fazer algo no diário de classe até o sinal bater. passou por mim impassível, mas deixou escorregar outro bilhete, este menos amassado que o primeiro que recebi de suas mãos.


créditos à the national e radiohead. (come on, tim festival! ;D)
olha, acho que eu nunca vou terminar isso, viu.



postado em um dia frio.




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Sábado, Julho 05, 2008

contos de escola ou menino-poeta, parte 10, parte 11 e parte 12

parte 10
encontrei-me no local escrito em tinta vermelha e borrada marcado naquele papel sagrado. sua letra não estava tão bonita, mas seria capaz de fazer um altar para glorificar tal objeto. dizia, em breves palavras, para nos encontrarmos na rua boa vista com a cinco de março, que logo descobri ser perto daquele tal café fatídico. saí apressado, sem dar satisfação à ninguém, e fugindo dos olhos atentos da minha irmã para que ela não percebesse o estranho rubor da minha face ou o suor constante que umidificou minha pele durante toda a terrível tarde de espera. fui com passos diretos e firmes, para que o tremor de minhas pernas não desviassem do caminho. mordia um dos lábios quando cheguei àquela esquina comum. estava escuro, encardido e não havia ninguém ali. temi que tudo fosse um golpe, que ela tivesse desistido desse encontro ridículo. talvez ela pensasse que se me deixasse esperando por ela por toda uma noite minha paixão minguasse, e assim pudesse dormir em paz sem se incomodar com ameaças ideológicas. sentei-me, talvez rezando para algum deus que ainda se importava com paixões febris e adolescentes, a observar o céu cheio de nuvens. meu mundo se assemelhava com tal céu nebuloso, carregado de dúvidas pertubadoras. fechei os olhos considerando a possibilidade de que, se ela não aparecesse, eu desse um jeito de sumir desse mundo. depois de minutos, os abri, e observei a bela lua crescente que uma das poderosas nuvens gentilmente a descobriu, talvez para apenas recobrar minhas esperanças perdidas. se ela não viesse... bem, se ela não viesse... eu não queria mais pensar naquilo. eu queria que a noite terminasse logo, logo. mas antes que pudesse matar todo meu entusiasmo, ouvi passos vacilantes. meu coração bateu depressa, poderia ser qualquer um, um mendigo bêbado ou um dependente em busca de uns trocados. mesmo assim, levantei-me, olhando de esguio para a sombra que se aproximava. sim, sorri contente, sim, era ela. sentei-me novamente e fingi observar o céu, tentando despreocupar minhas feições contorcidas. ao virar a esquina, ela olhou-me com um sorriso irônico.
- desculpa se fiz você esperar, menino. bonita noite, não?
gargalhou sarcasticamente. levantei-me, ficando em sua frente, de modo que ficara mais alto que ela, e que qualquer um na rua não diria que seriam aquele casal uma professora e um aluno.
- se olhar naquela direção, verá que aquela nuvem, ás vezes, deixa ver a lua que ali se esconde.
ela continuou com os olhos em mim, aqueles olhos de avaliadora. beijei o canto de sua boca macia. continou me olhando, como se fosse cientista testando reações de seu animal de cativeiro. beijei-a sem nenhuma timidez, segurando seus cabelos emaranhados e levando-a contra a parede. só depois olhei-a com mais cuidado. usava uma calça jeans apertada e uma bata decotada, sem adornos. fazia todo o sentido do mundo tê-la em minhas mãos.
- o que você quer com uma velhota como eu, menino-poeta?
- o que não encontrei em nenhuma menininha insolente.
- eu também já fui muito insolente. sua mãe não gostaria de te ver comigo, gostaria?
- bem, talvez seja isso toda a razão para minha paixão avassaladora. se minha mãe mandasse no meu coração, eu me casaria só com ela mesma.
ela riu com vontade e me beijou levemente, no rosto.
- você sabe o quanto isso é imoral e anti-ético.
- e também sei o quanto devemos permanecer calado.
ela me olhou daquele mesmo jeito quase insuportável, avaliando-me.
- você não está numa sala de aula, professorinha.
puxei-a para perto de mim e beijei seu pescoço.
- vamos ver o que você sabe fazer. venha, vamos sair desta rua escura.

parte 11
o quarto-sala que morava era caótico. havia panos coloridos e discos de vinil pendurados na parede. por todo lado, cadernos e papéis. uma arara guardava suas roupas, aquelas mesmas roupas que tanto desejava tirar desde a primeira vez que a vi. dormia no próprio sofá-cama, ou no tapete felpudo, entre as almofadas, nos dias de calor, como disse. tinha apenas uma bagunçada escrivaninha bamba e uma mesa de madeira onde fazia suas refeições. dizia que o fogão estava só de enfeite, pois quase nunca cozinhava.
suas pernas eram simplesmente maravilhosas. tirei a calça jeans com dificuldade, enquanto ela ria com vontade. a calcinha era preta, para meu puro delírio. tive vontade de rasgar sua bata, mas ela mordeu-me com força, deitada no tapete que tanto gostava, dizendo que tinha poucas roupas.
- por causa desse mau comportamento, vai ter que passar por umas provas antes de me ver nua.
- seu ego vai te matar, professorinha.
mordisquei seu pescoço e suas curvas salientes, massagiei seus pés frios, lambi suas coxas eriçadas, olhei-a vorazamente enquanto ela tirava minha camiseta e abria a calça com a maior facilidade do mundo.
- você é minha insanidade, me diz que tudo isso é verdade.
- mais poemas, menino-poeta, mais.
enrolei minha língua nas suas orelhas tentando captar todos os sons extraordinários para que pudessem ser meus. beijei seus olhos para poder tomá-los para mim e atravessar a janela da sua alma. encontrei com sua língua ácida para deixar nela o meu eu, e para que fizesse de mim, corpo e alma, somente dela. não havia mais duas pessoas separadas pela imoralidade ética de uma hierarquia irracional, mas dois seres que se uniam em fogo à busca dos segundos sem ar que fazem valer a mortalidade. quase não pude aguentar quando ela subira em cima de mim, arrancando a bata inútil, e lambendo-me devagar, apertandos seus seios contra meu corpo em êxtase. já sem poder segurar mais, penetrei com todo meu furor, ensejando chegar na sua alma. sorri, já sem forças, quando ouvi seu gemido desafinado e baixo, quase egoísta.

parte 12
fumava do meu lado, deitada e pelada. as pernas brancas de lado se encontravam na sua vagina desnuda; a barriga arquejava levemente, assim como os peitos com mamilos arrebitados; via-se partes do pescoço imóvel entre seus cabelos ainda mais bagunçados; os olhos pensativos fitavam o teto; abriu um sorriso bonito no rosto quando viu que eu a observava com avidez.
- diz me, não era virgem, né?
- não. mas minha ex só fazia sexo com luzes apagadas.
ela gargalhou com vontade fazendo os seios tremerem alucinadamente.
- como isso? é a primeira vez que vês um corpo de uma mulher?
- assim, sem receios, é. mas não me arrependo disso.
passei os dedos por sua cintura.
- que boba a sua ex. essas meninas...
- tá vendo porque eu prefiro uma velhinha como você?
sorriu, mas depois fechou-se em si, batendo os dedos nervosamente no tapete enquanto mordiscava a boca continuamente, mania que eu aprenderia a reconhecer não como um bom sinal.

i just wanna be a woman...
thank you, portishead



postado em um dia frio.




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Domingo, Junho 22, 2008

contos de escola ou menino-poeta, parte 8 e 9

parte 8

sorri, em êxtase. depois de tantas noites mal-dormidas, dormi. na minha boca ainda sentia o seu gosto, e a minha cabeça zunia lentamente, como quem é forçada a acreditar que um devaneio se realizou. devia ser a primeira vez de anos que isso acontecia. meus pés formigavam, ainda excitados. aquele dia não me masturbei, com medo que meus sonhos pertubassem a cena real que não saía da minha mente. estranhamente, sabia que aquilo era só o começo, e que nada podia dar tão errado. seria necessário agora só um esforço para derrubar uma convenção de moral estúpida. se ela realmente me quisesse... as aparências não seriam fortes o suficiente para derrubar tal paixão insalubre. fechei os olhos, calmo, agora meu coração parara de se sacudir e retumbava compassadamente, sem sair do ritmo. inspirei, para mergulhar na repetição periódica e infinita do que acabara de acontecer, coisa essa que agora parecia disforme, patética e irreal. será que era possível que eu me enganasse? será que sentir sua saliva era apenas minha imaginação exercendo sua incrível força sobre mim? adormeci, afastando tais pensamentos mórbidos, pois se isto era verdade, bem era também que eu estava já a ponto de ser internado.

parte 9

só fui tirar a dúvida de que minha cabeça não havia pregado uma peça em mim mesmo na segunda-feira. o sol de final de semana tinha se esvaído tanto como a certeza da minha lucidez, e o céu se revirava em tons de cinza, branco e roxo. tal professora maldita, quando não me matava por me fazer sofrer, invertia toda a ordem dos meus pensamentos, a percepção tão clara que eu sempre tive, a minha noção de realidade e sonho. nesses últimos meses, não sabia mais quem era eu. podia ter mudado por completo, e não já me reconhecia em parte alguma, a não ser na certeza estúpida de desejar esta mulher. quando bateu o sinal, esperei, com a cabeça e os olhos baixos, visivelmente pertubado. só quando senti que a classe retornava, devido a presença da professora, pude olhar para frente. ela colocava os seus livros e papéis inutéis na mesa do professor, inclinando-se levemente, mostrando suas batatas da perna brancas e redondas. usava uma saia esvoaçante, que deixava qualquer movimento insinuante. olhou para os alunos e sorriu. preguei os olhos nela, feito predador de olho na sua caça fugitiva, e neste momento, perpassou seus olhos felinos sobre mim, desfazendo o lindo sorriso, em uma careta rápida, emburrecendo as feições e, em seguida, virando-se de costas. aquilo não me agradara, mas, no ínfimo, vibrei. pelo menos louco, completamente louco, não estava; minha mãe agradece, professorinha. ela não quis ficar de frente à sala, nem falou muito. quando teve que explicar alguma coisa, sentava-se na sua mesa, arrastada para o canto extremo do qual eu sentava na sala. eu via que essa batalha ia me doer um tanto, mas era preciso enfrentá-la com todas as armas disponíveis. e não hesitei, pois não tinha chego a tal ponto para retroceder. agora já estava feito. não desviei meu olhar de seu semblante amargo durante um segundo, sentado de lado, com as mãos na carteira, sem me preocupar em fazer nenhum exercício. ela percebia, mas fingia que não. mexia nos cabelos, coaçava a perna, levantando a saia, quase sem consciência do pecado que cometia. no meio da aula, deu de andar para os lados e dar bronca a qualquer um que tivesse a infeliz idéia de perguntar alguma coisa. sorte dela que ninguém estava interessado em literatura, e por isso não tinha que aturar nenhuma voz interrogativa. quando vi que ela recolhia os materiais, olhando desesperada para o relógio na parede, levantei a mão. ela me ignorou. chamei-a, em meio aos zunidos e gritos de conversas e 'trucos'. ela me olhou, indagativa, com um pouco mais de agressão na expressão que o comum. sorri. ela virou de costas e sentou-se com as mãos na testa. continuei a olhá-la incessamente até o sinal bater. continuei a sustentar meu olhar, esperando sua próxima reação. talvez ela tivesse entendido. talvez ela se fingisse de burra. contraditoriamente, ela continuou sentada na sua mesa, escrevendo, até o último aluno retardatário sair. quando o silêncio tornou-se insuportável, ela voltou a me olhar com agressividade. eu já estava de pé, com a mochila nas cotas. virei-me, dando passos vaciltantes, mas ainda assim certeiros, em direção a porta. então, ouvi sua voz, que não era nem de longe, doce.
- agora espera, caralho.
virei meu rosto para sua figura empertigada, feito galo de briga, seus olhos continham uma fúria irreprensível, mas a boca sorria um sorriso torto e cruel. fechei a porta da sala. andei cambaleante até ela, e percebi como minha lentidão e minha ousadia a irritavam cada vez mais. quando cheguei perto, suficientemente perto para sentir seu perfume, seu sorriso se contraíra em uma feição que poderia ser de choro.
- o que você quer de mim, hein?
- de você, nada. nunca poderia cobrar nada de você.
- não tens nem o direito, menino. quer parar de me olhar desse jeito?
- não posso controlar, professora. sério, não ria assim, tão sarcasticamente. mas a senhora não tava achando que eu ia chegar aqui e esquecer tudo, não é?
- não acho porra nenhuma de você. acho que você devia sumir.
- sumir para que eu não te pertube mais? que decepção com a senhora.
dei um passo para trás. enquanto ela, andava para frente, com o peito estufado, as mãos na cintura, os cabelos embrenhados de louca cobrindo a cara.
- decepção? para mim, tudo isto era paixão. - dizendo isso olhou para o meio das minhas pernas, com os olhos apertados mostrando tal cinismo que nunca vi tão claro em sua voz ácida.
- mas é! por uma mulher que não siga convenções, que não se preocupe com as aparências, que não viva de acordo com o que a sociedade manda. mulher esta que você parece. mas vejo agora que só é primeira impressão. pena.
eu sabia que tinha acertado. ela me olhou atônita, deixando cair um dos braços, mole do lado do corpo. a coluna voltou a curvar-se, em posição de submissão e a boca se escancarou incoscientemente, mais parecendo uma revolucionária velha que descobre a falsidade de seus ideias. quando recuperou do sustou, passando a mão pelo rosto e pelos cabelos, e se apoiando na mesa, pegou uma papel e escreveu alguma coisa em tinta vermelha. abriu minha mão sem cerimônia e enfiou o papel entre meus dedos, fechando-a depois. ainda segurando minhas mãos, em um gesto que não era nem carinhoso nem fraternal, disse, com estupidez:
- sabia que seu discurso agressivo vale muito mais que seus poemas babacas e românticos que escreve.



'uuh, coração leviano, não sabes o que fez do meu.'



postado em um dia frio.




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Segunda-feira, Junho 09, 2008

contos de escola, parte 7

o sol se punha devagar no horizonte, agora. minha professora tomava um gole do seu terceiro café. estalou os lábios e olhou para mim, com um sorriso tão bonito que eu tive vontade de beijá-la naquele momento.
- eu nunca conversei de tantas coisas profundas com um aluno.
eu sorri. nas últimas horas, meu coração não parara só um segundo; e não era só o seu sorriso doce, a sua voz irônica ou seus peitos que arfavam lentamente enquanto falava. era de todas as palavras cortantes que saíam da sua boca e saíam esvoaçando por todo o lugar, contagiando o mundo do jeito que era só dela. não pude deixar de reparar como falava com desenvoltura, que tinha conhecimento de todos os assuntos e que vivia apaixonadamente. era impossível que ela realmente existisse, e que pudesse ainda ouvir minhas palavras imaturas, cegas de experiência, carregadas por uma paixão irresponsável e irracional. mas ela parecia se divertir toda vez que eu discorria sobrte um assunto, e eu procurava transmitir o meu sentimento por todas as entrelinhas. eu sabia que ela entendia... sabia porque a cada final de frase, a maldita sorria de lado, segura e provocante. pensei que talvez estivesse debochando de mim, que eu fosse uma piada, um brinquedo. mas eu não me importava muito com isso, ela poderia abusar o quanto quisesse de mim.
- mas eu preciso ir, menino-poeta.
ela disse isso, mas continuou sentada, olhando me ansiosamente. eu peguei em sua mão, e pedi, com olhos suplicantes, que ficasse. que ficasse até que o mundo acabasse, porque já não importava muito.
- você diz umas coisas engraçadas. mas eu gosto. você não acha que nossas almas combinam?
- ora, professora. como eu poderia conhecer tão a fundo sua alma se nem teu corpo conheci?
e eu pensei que seria a morte, e que ela iria embora, e que eu nunca a mais veria, seria o nosso fim, por uma frase tão pragmática, tão idiota, tão cinematográfica, tão literária... que não cabe na vida real. ela continou meu olhando, como quem se decide por algo. não tinha expressão alguma, ou eu era incapaz de detectar algum tipo de sinal. meu corpo tremia de excitação... mas meu medo de que ela percebesse já não existia. aproximei-me dela, devagar... não havia mais escapatória. era a morte. eu podia sentir sua respiração morna... seus olhos pretos arredondados me fitavam, um pouco assustados, mas ainda assim, uma vastidão de mistérios caóticos. você é minha morte, professora. e eu me entregarei ao suicídio, sem mais hesitar.
encostei meus lábios nos dela, devagar... ela não se moveu, não deu sinal nem de continuidade, muito menos de querer ir embora. parecia que travava uma severa guerra dentro de si, ou assim eu pensava. passei meus lábios sobre os carnudos dela, sentindo um pouco da sua saliva quente misturar-se à minha. enfiei minha língua e fechei os olhos, dando tudo de mim... eu não poderia mais sair dali.
a partir daquele dia, meus lábios no seu colaram. vivíamos assim, e já não tínhamos voz. éramos entrelaçados, de corpo e alma, e era só isso com o que nos preocupávamos. quando, enfim, morremos (e no mesmo dia, pois, clichê assim, sem você é o fim) enterraram-nos juntos, e fizeram de nós remanescentes do amor em mundo de ódio.
já não sabia que lugar eu estava, quando ela afastou-se de mim. minha boca estava morna e amortecida, marcada com sua saliva consistente e ácida e minha língua ainda se agitava em loucos ciclos, inquieta, insatisfeita, pedindo mais. ela me olhou com um misto de desprezo e tristeza. não entendi tanto sentimento de repugnância depois de ter me levado por mundos fantasiosos em poucos segundos.
- isso é um erro... lava essa boca e vai para casa.
- não!
ela olhou-me querendo dizer cala a boca, e limpou a boca, olhando com aspereza os respingos de saliva que ficaram em sua mão ao fazer isso.
- vai, moleque, vai! some daqui! some, some, some!
- prof...
e gritando isso, histérica e descontrolada, saiu andando rápido para o fundo do café. passou debaixo do balcão, feito bicho assustado, e sumiu por uma porta escondida de marrom. resolvi ir embora, um pouco arrasado. mas ainda assim, não conseguia tirar do meu rosto um sorriso de quem está chegando ao fim da corrida.



é preciso dizer que te amo, te amar ou perder sem engano.



postado em um dia frio.




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Sábado, Maio 31, 2008

contos de escola, parte 5 e parte 6

parte 5
fazia um lindo sábado de sol, e por isso mesmo acordara já um tanto irritado. para quê tanto sol, se dentro de mim não passava aquela ânsia contínua, aquela raiva de mim mesmo que se intercalava com momentos românticos patéticos. era já duas horas da tarde. minha mãe me olhou com profundo desgosto, dissertando sobre como acordara tarde e que eu deveria me ocupar aos sábados. não respondi. minha irmã mais velha estava na cozinha, com a mesma cara sonolenta e mal humorada, já que devia ter ouvido a mesma lição de moral. ela olhou para mim, e fez-se de preocupada.
- desde quando você tem olheiras? - perguntou de supetão.
olhei-a com ódio mortal, já que agora minha mãe atentou os olhos para o meu rosto e começara a me pegar em todas as partes do corpo - e não só debaixo dos olhos; agora lamentando ter dando bronca por eu ter acordado tarde, e mudando seu discurso severo para que eu fosse dormir mais e fazer menos atividades.
- acho que eu tenho insônia só, mãe.
o que não foi cosa certa de se falar, pois agora ela se desesperava, chegando à sensata conclusão de que eu era depressivo e precisava de um psicólogo. descutir não adiantaria, então continuei calado, fitando minha irmã e desejando que ela pudesse morrer naquele segundo. quando minha mãe sumiu, com o pretexto de fazer o almoço para ver se eu voltava ao normal, ela disse, com um sorriso provocador:
- isso é amor, não é depressão.
- dá no mesmo, não é?
achei que ela ia debochar, mas seu sorriso desapareceu do rosto e assumiu uma expressão maternal. expressão essa diferente da minha mãe, cheia de seus dramas exagerados dignos de telenovela, mas sim carregado de um carinho essencial. debruçou-se sobre mim, e previsivelmente, me deu um abraço enquanto afagava calmamente meus cabelos.
- você continua escrevendo? eu gostava tanto do que você escrevia. era tão... romântico. mas ao mesmo tempo... tão sexy.
eu apenas ri.
- ou agora seus poemas são secretos à essa garota boba? olha, eu espero que ela seja bonita e inteligente pra te merecer.
- ela é. muito inteligente. e linda... como um sonho.
ela sorriu timidamente, de um jeito que lembrou tanto minha professora que eu me apertei ainda mais contra o corpo daquela mulher incrível. minha irmã se desvicilhiou do abraço, mais ainda tinha aquela expressão cuidadosa no rosto.
- não deixa ela te fazer sofrer tanto, tá? você é um menino ainda.
- é, ela sabe. e talvez seja isso o nosso problema.
- o que você quer dizer?
- nada.
ela ia insistir, mas percebeu pela minha cara que não serveria de nada. deu de ombros e, com a chegada da mamãe carregando uma travessa de arroz ligeiramente queimado no fundo, a sua expressão maternal incrivelmente se desfez num instante, e retomou a posição de garota revoltada que sempre deu a impressão de ser.

parte 6
o dia já estava escurecendo, e com a saída da minha mãe, que para variar foi no supermercado, e da minha irmã, que saiu com o namorado, a casa vazia me dava tamanha angústia que me impedia de até escrever. os móveis pareciam ranger e me condenar por uma paixão tão doentil e fora do normal. gabriela já tinha me ligado e convidado para sair, mas eu não pensei duas vezes em negar. o que eu mais queria, naquele momento, era ficar sozinho e tomar alguma decisão. eu precisava, de algum jeito, e antes que fosse tarde, esquecer essa maldita professora. os cabelos em desalinho dela, ás vezes, eram tão sujos que me dava nojo. as unhas mal feitas revelevam sua personalidade fraca e pendente. o riso contagiante que dirigia à todos os garotos da sala, que me corriam de ciúme, mostrava como era acessível. quando resolvia gritar com a sala, sua voz era tão estridente que me despertava desse estado latente, frequentemente chamado de paixão, que fui me meter. as roupas eram compradas de brechó, roupas que carregavam tantas histórias encardidas, algumas próprias dela, que não deveria ser tocadas - nem que o motivo fosse despi-la. e além do mais, era um tanto ridículo quando contava de suas estripulias bêbadas tentando ganhar a atenção dos estudantes, usando uma linguagem longe de ser de norma culta. e pior quando mostrava as suas falhas quanto à matéria propriamente dita, comprovando ser mais uma professora do Estado sem qualificação. assim, resolvi sair de casa para tomar um café na cidade, enquanto me divertia inventado motivos para odiá-la. de certa maneira, aquilo recobrava meu ânimo. perscrutar todos os detalhes que eu deixava passar (e também criar ou exagerar alguns) deu-me a imagem perfeita de que ela era humana, e que nada tinha de especial para eu tando adorá-la. podia sentir minhas bochechas vermelhas e até abri um sorriso vendo o malabarista com suas bolas de tênis pintado de palhaço tentando ganhar um trocado com seu espetáculo à parte. mesmo sendo pedestre, joguei-lhe uma moeda, e ela fez uma profunda reverência encostando seu nariz vermelho no chão. perguntei aonde tinha um café bom e barato naquela região para eu tomar. ele me mostrou um café pequeno de esquina, com umas mesas de madeira no chão, simples e que trazia um cartaz anunciando promoção de pão de queijo. o céu tinha tons de todas as cores, e parei, na entrada no café, somente para apreciar o que estava acima de mim e que eu nem me dava conta. então, ouvi uma voz me chamar. parecia um pouco com a da professora, mas ignorei esse sentido ridículo de querer que ela esteja aonde eu for... mas... quando olhei para a direção do som... subitamente, todos os defeitos dela desapareceram. na mesa mais perto da entrada do café, um pouco escondida, com um livro aberto em mãos, ali estava ela. estava com os cabelos completamente soltos, e me abria um sorriso lindo. vestia uma regata azul pretóleo decotada que nunca poderia usar numa sala de aula. trazia em volta do pescoço e até a altura dos peitos, uns colares de miçangas coloridas, sem ordem alguma. para minha surpresa maior, usava um shorts jeans curto e havaianas, que deixavam ver seus pés um pouco gordinhos e branquinhos, e tanto mais as coxas... que... que simplesmente me deixaram de pau ereto no ato do meu olhar disfarçado. sorri à ela
- está fazendo o que aqui, menino-poeta? observando o céu?
- vim tomar um café, professora.
- shiu, professora, aqui não. cátia. e senta aqui!
- obrigado - disse sentando-me na cadeira à sua frente - mas eu gosto de te chamar de professora.
- bem, isso quem decide é você. mas não posso deixar de notar o quanto formal é isso. - aproximou seu rosto do meu e abriu um sorriso, com um quê de malícia - cátia é mais íntimo. digo, próximo.
afastou-se de novo e pediu um café para mim, dizendo que pagaria, no dever de professora. então, eu caí da cama e acordei. não, não acordei, porque era real, e ela me falva com eloquência de como o céu estava tão bonito, mas que era uma pena que essas cores fossem poluição. reconstitui-me de minha surpresa, e amaldiçoando o destino por ser tão desgraçado e imprevisível comigo - mas ao mesmo tempo tão delirante e doce - resolvei entrar de cabeça pra essa brincadeira.


pato fu de novo.
(estou pensando em mudar o nome da história para doente de amor ou menino-poeta, já que eliminei, pelo menos por enquanto, a parte da gabriela e também que nunca vi tantos hormônios e tanto amor num menino só! haha)



postado em um dia frio.




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Segunda-feira, Maio 12, 2008

contos de escola, parte 4

ao ouvir o sinal tocar, meu coração retumbou e logo minhas frouxas pernas deram de se sentir bambas. permaneci sentado na mesa, quase estático, enquanto a sala inteira adentrava naquela algazarra infernal. vi gabriela se levantar, com os seus olhos mortos direcionados à mim, e com aquela indolência que tanto me irritava naqueles dias de tensão e tesão contínua. perguntou com uma voz arrastada, que quase pertubava meus sentidos aguçados, se eu queria ir com ela beber água. fiz que não, olhando impaciente para a porta da sala. ela me olhou desconfiada, mas deixou por estar, afastando-se com seus pés arrastados, um pouco jururu. dei de ombros, sem poder esconder minha impaciência para querer ver surgir, pela fresta da porta metálica, cabelos despenteados, sapatilhas coloridas de passos firmes... aquela voz que acabava por me acordar de tanto que gritava nos meus sonhos, causa das minhas olheiras.
porém, em vez da pele lisa, dos cabelos esvoaçantes, das roupas coloridas, da voz irônica e enérgica, surgiu a bruta figura duma velha mal encarada. mal entrou dentro da sala, com sapatos de fivela antiquados e roupas pretas para disfarçar o quanto era gorda, e disse com uma voz rouca e escrachada que a professora de literatura teve problemas e faltou. no mesmo instante, as pessoas presentes na sala vibraram de alegria verdadeira e irracional, e correram para os corredores feito macacos sob efeitos de lsd, atropelando a velha estática que conservava sempre a mesma cara enrugada e hostil, gritando aos quatro cantos que tinham aula vaga. os únicos que sobraram na sala de aula, que, embora vazia, estava um caos, foi eu e uma menina que lamentava a irresponsabilidade dos professores. não gostei do tom que ela falara, mas ignorei, imaginando que a única coisa que a pobre criatura tinha a se preocupar era em ter aulas eficazes para estudar e estudar, como forma de alimentar seu sentido de existência. demorei a sair, fazendo com que a velha olhasse para mim com extrema repugnância e me mandasse sair logo para que ela pudesse trancar a porta. eu estava em estado febril. esperara tanto por aquele momento, programara tantas formas de tê-la em meus braços, dado gargalhadas provocantes e me deixando brincar com seus mamilos arrebitados, após a aula...
perguntei à mulher por quê a professora tinha faltado.
- não sei de nada, moleque. mas ocê tá bem? tá pálido!
- não, tudo bem comigo...mas a senhora não sabe mesmo? problemas sérios?
- ora, isso não é da minha conta, e nem sua. anda, anda...
sentei-me nas mesas do pátio, tendo que encarar a falatória gabriela, que parecia feliz em ter uma aula vaga para tomar um pouco de sol. percebendo meu estado, tentou me alegrar comentando sobre as belezas de se viver, mas não conseguiu arrancar mais do que alguns monossilabos irritados. por fim, irritou-se também e saiu, com uma voz um pouco chorosa, balançando seus cabelos louros sem graça enquanto andava sem encanto algum. suspirei, achando-me um tanto bobo e sem graça também, por encarar que, para mim, tudo que estava relacionado a falta dela era como um furacão devastador. que desgraça ter entrado naquela sala, professora, que desgraça que fizera em minha vida.

teu olhar não me diz exato quem tu és, mesmo assim eu te devoro...



postado em um dia frio.




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Segunda-feira, Abril 14, 2008

contos de escola, parte 3

ela me olhou com seus olhos ternos, os cabelos desalinhados desajeitos sobre a cara escondiam sua real expressão, começou a dizer, lentamente com aquela voz tensa, suave e levemente irônica.
- bom... muito bom.
abaixou os olhos para o poema que tinha entre os dedos, feitos por meus próprios, em noites de insônia soturna, que estive a procurar palavras intensas, ávido por expressar um sentimento sem cor. ela parecia sem graça, mas não pude definir bem, já que ela continuava a esconder a sua reação. talvez fosse indiferença disfarçada de susto, ou talvez, como acontecia nos meus mais belos e pertubadores sonhos, realmente assustada, como se tivesse entendido o sentido de cada palavra sofrêgamente escrita em tinta azul.
- você... escreve surpreendemente bem para sua idade.
então, eu pude perceber. dentro de mim, todos meus sentidos explodiram de felicidade insensata e precipitada, mas irreprimível. eu poderia perceber que seus olhos ternos de mestre fiel e decente, tinham a íris saltada, a órbita levemente vermelha, como se expressasse um desejo que já era todo meu - e como eu queria que fosse dela também. talvez fosse mentira dos meus sentidos, já que estes me maltratavam, sem saber distinguir o que era sonho e o que era real. meu peito arfava em movimentos rápidos, eu mal podia conter meu nervosismo. não tirava, por um segundo, os olhos dela, nem quando ela, sem receber resposta de meus lábios secos e incapazes de dizer qualquer palavra, voltou a reler a poesia. poderia ler e reler e reler, por toda a eternidade. estava ali toda a minha alma, o meu ardor em palavras rabiscadas, e ela precisava entender isso urgentemente.
- posso levar pra casa pra analisar?
ah, você poderia fazer qualquer coisa com ele, professora. poderia se masturbar com ele pensando em mim ou enrolar um beck que permita te fazer sentir tudo que eu sinto, isso não importa. eu continuei com meu olhar atônito, infantil, abobado; como se não fosse uma pergunta.
- calma, rapaz, não precisa ficar nervoso.
ela disse lentamente, em voz baixa, quase um sussurro particular, uma voz doce que não tinha nenhuma ironia, apenas uma tirania de predadora, felina domesticada. eu achei que não poderia suportar, isso não estava em meus sonhos mais impossíveis. tinha vontade de arrancar meu coração enlouquecido, baixar toda a adrenalina acelerada que me deixava feito criança de quinta série; mas me contive, estufei o peito e lhe sorri.
- que bom que você gostou, professora. é para você.
dei um beijo estalado em seu rosto, passando a mão pelos seus cabelos macios e saí apressado, sem olhar uma vez para trás, com passos determinados, mas ainda assim, um pouco vacilantes; coragem que eu não tinha idéia que existia.


eu queria tanto encontrar uma pessoa como eu... - pato fu.



postado em um dia frio.




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Sábado, Abril 05, 2008

contos de escola, parte 2
minhas unhas estavam todas ruídas. ruídas, ruídas, de tanto nele pensar! tinha olhos verdes encantadores, sorrisos enviesados sedutores. quando ele me olhava, era como se me despisse. e eu tentei, eu juro que tentei, segurar todas as minhas roupas, cobrir minhas partes íntimas... mas eu não resisti. me entreguei, de corpo e alma. seus cabelos loiro-sujos, sua pele branca. era calado, falava muito, quando de maneira certa aliciado. era sério, odiava ser interrompido na aula de literatura. tinha uma risada irritantemente masculina. pegava no lápis de maneira estranha, não falava de pornografias com outros moleques infantis da sala.
eu poderia fazer poemas enormes só ao descrever todos seus detalhes incrivelmente fascinantes. mas quando eu o via, até as palavras faltavam. minha boca secava, meu coração pulava feito louco, as pernas quase não se sustentavam. minha cebeça tinha tantos pensamentos, que eu não podia distinguir nenhum. eu não tinha reações, mas eu só queria estar ali, perto dele.
era estranho refletir sobre isso. eu me sentia tão boba, tão vulnerável. ninguém mais no mundo parecia sentir-se assim, tão cafona, e tão perdidamente apaixonada. eu mordia meus dedos, mexia nos meus cabelos, querendo que fossem os dele. devia ser um grande escritor. ou músico. ele poderia escrever alguma coisa para mim.
mas tudo tudo tudo relacionado a ele, não eram nada mais que verbos no passado pretérito, sugerindo possibilidade. ah! dúvidas. como eu as odiava.



postado em um dia frio.




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Sábado, Março 22, 2008

contos de escola, parte 1
tinha cabelos compridos desalinhados, abaixo dos ombros. sorria de modo insinuante. levava óculos redondos e de aro grosso sobre os olhos pretos, que não lhe davam aparência de intelectualidade, mas sim de insanidade. entrou na sala calçando rasteiras simples marrons, sorriu para os alunos indiferentes. pôs-se no centro e disse um bom-dia, meio sem jeito. só ouve alguns murmúrios mal-humorados em resposta, e isto não chamou atenção de metade da sala, mas eu manti meus olhos nela e lhe respondi, com toda a simpatia arrogante que minha voz grossa poderia carregar. ela olhou para mim. essa foi a primeira vez que teve contato direto com meus olhos verdes-água. eu nunca me esquecerei daquele olhar. não foi professor-aluno, aquela formalidade hierárquica sistemática. foi íntimo, leal, complacente. gostei dela. tinha seios grandes, embora parecesse não usar sutiã, sua blusa um pouco apertada marcava levemente o bico do seio. cintura fina, mas não era magra. pernas grossas, delineadas. tirou os olhos de mim, talvez incomodada com o tanto que já a tinha dissecado, da cabeça aos pés. e lançou à sala aquele olhar rigoroso de professores, que com certeza eles devem aprender isto em suas aulas extras de pedagogia.
- eu sou a professora de literatura nova de vocês. calem a boca, só um pouco, para ver se vocês vão gostar de mim. se não gostarem, eu sei ótimas técnicas de hipnotização que vai parecer a qualquer babaca que entrar aqui o quanto vocês tão prestando atenção na minha aula.
a voz dela era firme, mas ainda sim, tinha um quê de ironia sutil a cada final de frase que soltava. sorri novamente para ela. poderia lhe dizer agora que não precisava de técnicas de hipnotização, com um olhar, eu já tinha abandonado todas as minhas resistências masculinas - que não são lá muito fortes.



postado em um dia frio.




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Quarta-feira, Março 05, 2008

castanho
ele tinha cabelos castanhos, olhos castanhos. normal até demais, para ele a vida parecia meio castanha. castanho, esse tom que a gente só usa pra definir os olhos e os cabelos. acho que é um tanto quanto humilhante dizer "tenho olhos e cabelos assim, ééé... marrom." marrom, essa cor desgraçada, que está ligada, no nosso subconsciente, à merda. e nós não queremos ter cor de merda. deve ser também um grande esforço dizer perto de alguém de lindos cabelos loiros e olhos azuis-cor-do-céu que tem olhos marrons, pretos, cinzas. parece que somos mais tristes, mais normais, mais feios, com o perdão da palavra pouco poética. afinal, todos nós somos um pouco poetas românticos, sempre a tentar colorir o que enoja, acobertar as falcatruas, eufemismo derivado de puro egocentrismo. marrons ou castanhos, assim parecia a ele todos os outros, todos os mundos. a ótica castanha lhe transmitia o mundo feito uma grande fotografia antiga, cor de sépia, de grandes famílias com sorrisos amarelos, arrumadas e aprumadas, fingindo estar no lugar e na hora certa, mas apenas fingindo, loucos para que a fumaça saia do daguerreótipo e possam escapar, errados e humanos, com grandes sorrisos largos e lágrimas de lamentação. e por isso não gostava de fotografias. achava um tanto quanto uma encenação do que a vida realmente era, todos esses sorrisos, todos esses sorrisos, quem nunca se irritou com eles? nem que seja com o sorriso de algum desgraçado que acha bonito, depois do fim, continuar congelando esse sorriso tosco e tonto, como se o tempo pudesse parar no que há de melhor. para ele, o tempo estava quase sempre ruim. dias fechados, nuvens cinzentas mirabolantes, aquela neblina corrosiva que passamos por ela olhando para todos os lados, como se alguma coisa estivesse à espreita, para nos atacar. esses dias que te faziam torcer o focinho quando abria as cortinas floridas da sua sala de estar branca e limpa, faziam a alegria dele. todos os dias, ao amanhecer, levantava as palpebras como se carregasse uma bigorna em cada uma, como se quisesse para sempre se aconchegar naquela cama quente e sua. se punha de pé com muito esforço, e logo olhava pela janela para decidir seu humor, por pelo menos, os próximos cinco minutos. caminhava lentamente, pé ante pé, aquela figura alta com pijama de mangas compridas de bolinhas azuis tão estranha e tão comum, até o banheiro. olhava sua cara no espelho, e logo se embasbacava todo, como se ficasse sem graça por aquilo que representava. não que fosse feio, feio de doer, mas que fosse comum, que fosse tão diferente do que imagiva ser, com todas essas idéias mórbidas, com toda essa realidade sobre os ombros, essa profundidade cheia de humor negro. jogava água no rosto, e aí sim, suas sobrancelhas desajeitadas ficavam arrepiadas, mais escuras que o cabelo, os cílios molhados pela água fresca, e podia até se acustumar com a sua imagem. afagava com as mãos o cabelo, mesmo que isso não adiantasse muito, já que os fios lisos preferiam ficar rebeldes. tirava o pijama de criança, feito pela sua vó, admirando, no pequeno espelho acima da pia, um pouco trincado nas pontas (talvez ganhasse quatro anos de azar, por isso? seria ótimo uma vida inteira!), o peito nu, a magreza normal. gostaria de se descrever 'magro anormalmente onde se pudesse estudar os ossos da coluna ao tirar a camiseta', mas era apenas magro. talvez poderia ser gordo, e aí sim, a descrição seria detalhada, e até um pouco nojenta. mas seria engraçada. diante disso, abriu aquele sorriso amarelado, aquele mesmo das grandes famílias em sépias. era o que mais odiava, esse sorriso sem graça, de contentamento conveniente pela vida. se trocava com a mesma falta de entusiasmo, colocando qualquer roupa que melhor tivesse ao seu alcance. pegava a mochila pronta, preta, simples, mas não que isso fosse culpa dele - e sim da mãe que comprou a em promoção (e mochilas em promoção não são legais). chegava na escola às sete e vinte, e logo já colocava sua cabeça genial - não que ele desconfiasse disso, e mais ninguém aliás - para pensar sobre todas as pessoas castanhas. admitava àquelas castanhas iguais aos outros, mas que faziam todo o esforço para se tornarem coloridas. aos olhos dele, até um ou outro pudesse ganhar uma cor ou outra. essas pessoas, sem que nenhuma delas jamais imaginasse - nem que fosse seus amigos íntimos, pois odiava falar de sentimentalidades - eram essas as pessoas que mais amava, e que conseguiam fazer com que ele sorrise, mesmo que fosse amarelo, tonto e tosco. naquele dia em especial, um dia que anunciava chuva, e por isso sua dose de humor estava mais alta que o normal, podia-se até notar fagulhas de uma alegria inexplicável naqueles olhos castanhos, tão castanhos. pois sim, colocara seus olhos na sua menina castanha mais extravagante, toda cheia de tentar ser cor, e poderia só para esconder o cinza que era por dentro. ela o olhou e cumprimentou normalmente, depois sorriu e disse "vai chover, né?". essas puxadas de assunto eram realmente inúteis e irritantes, mas ele deixava ela se aproximar desse seu mundo cor de bosta - sim, cor de bosta e ponto final. "eu gosto." ela sorriu e disse, quase como um sermão "você é estranho."
ele sorriu, e não foi amarelo, foi verdadeiro, quase iluminador, daqueles sorrisos que fazem revigorar um morto! e depois de sorrir, olhou novamente o mundo, um pouco menos marrom, digamos um marrom-clarinho?! aquele lápis de cor que a gente usa pra pintar galhos de flores, não troncos rígidos, mas galhos frágeis, e queria tanto que ela fosse frágil o bastante para que ele pudesse levá-la dentro de uma caixa de papelão para cuidar com carinho de todas flores cinzas.


los hermanos na vitrola, como manda o costume.



postado em um dia frio.




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